Um breve história de como tudo começou: do século XIII ao XVII.
O desenvolvimento da Histologia e dos conhecimentos associados a esta disciplina sempre estiveram em íntima dependência com a evolução das técnicas de microscopia. Os avanços da área de microscopia contribuem, ainda hoje, de forma inequívoca para o aprofundamento dos conhecimentos da área de Histologia.
O microscópio, sem sombra de dúvidas, foi uma das maiores invenções da história da Ciência. O surgimento dos microscópios contribuiu para o avanço científico e social da humanidade, de forma importante, para a área médica.
Os primeiros relatos de materiais que tinham por função ampliar estruturas vêm do século XIII, em que lentes em forma de contas de vidro, quando estavam cheias de água, aumentavam a imagem de objetos, neste momento, muito relacionados à joalheria.
No final do século XVI, Zaccharias Janssen, um fabricante de lentes e óculos da Holanda, inseriu uma lente convexa e outra côncava na extremidade de um latão e descobriu que objetos poderiam ser ampliados. Já no século XVII, Robert Hooke, um cientista inglês e figura chave na revolução científica, criou um microscópio enquanto trabalhava na London Royal Society. Suas observações no microscópio levaram-no a utilizar pela primeira vez a palavra “célula”, indicando as estruturas que via em uma cortiça. Em 1665, Hooke lançou seu livro intitulado “Micrographia” contendo a descrição detalhada de 57 observações feitas com seu próprio microscópio, dentre elas as descrições de gelo, neve, cortiça, carvão vegetal, piolho e o olho composto da mosca.
TL;DR:
A Histologia se desenvolveu em paralelo à evolução dos microscópios. Desde lentes rudimentares no século XIII até o microscópio eletrônico em 1931, avanços técnicos permitiram a descrição de células, tecidos e órgãos, consolidando a Teoria Celular e abrindo caminho para a Patologia e Neurohistologia. Figuras como Hooke, Leeuwenhoek, Malpighi, Bichat, Purkinje, Schwann, Golgi e Cajal foram marcos na construção da disciplina. No século XX, melhorias em fixação, colorações e microscopia eletrônica revolucionaram a área. Hoje, a Histologia continua a avançar graças a novas técnicas e ao desenvolvimento de microscópios cada vez mais sofisticados.
Zacharias Janssen (1580 – 1632) foi um inventor e fabricante de lentes de óculos.
Hooke acabou por influenciar Antoin van Leeuwenhoek que promoveu melhorias no microscópio, aumentando a qualidade da imagem gerada. Ele pôde observar espermatozoides de várias espécies, células sanguíneas, o aspecto estriado dos músculos e bactérias dos seus próprios dentes, as quais chamou de “animalcules” e que descreveu “há tantos animais na raspagem dos dentes que eles provavelmente são mais do que o número de homens de um reino”. Os microscópios, tanto de Hooke quanto de Leeuwenhoek, tinham como fonte de luz a própria luz solar ou a luz da vela, sendo, ainda leves e portáteis.
Robert Hooke (1635 – 1703) foi um cientista experimental inglês, uma das figuras-chave da revolução científica.
Anton van Leeuwenhoek (1632 – 1723) foi um comerciante de tecidos, cientista e construtor de microscópios.
Ainda no século XVII, Marcello Malpighi usou, pela primeira vez, o microscópio de forma científica, estabelecendo o campo da Anatomia Microscópica em Bolonha – Itália. Ele observou e descreveu vários órgãos e estruturas anatômicas humanas e seu nome acabou sendo associado com estruturas reais, os corpúsculos de Malpighi (corpúsculos renais). Outro nome do mesmo século foi o do médico Reinier De Graaf, que embora tenha trabalho com pâncreas e testículos, tem seu nome vinculado aos folículos ovarianos. Isto provavelmente aconteceu, pois De Graaf foi quem designou a gônada feminina como “ovário” pela primeira vez.
Marcello Malpighi (1628 – 1694) foi um médico, anatomista e biólogo italiano. Foi pioneiro na utilização do microscópio, sendo considerado por muitos um dos fundadores da fisiologia comparativa e da anatomia microscópica.
Reinier de Graaf (1641 – 1673) foi um médico, fisiologista e anatomista holandês que fez descobertas importantes na biologia reprodutiva.
Séculos XVIII e XIX.
A partir de 1730 houve muitas invenções mecânicas associadas aos microscópios. Mesmo assim, nesta época, havia pouquíssimos microscópios disponíveis e as técnicas de processamento de materiais era inadequada, de forma que muitos acadêmicos consideravam que as imagens microscópicas eram ilusórias, e por esse motivo, não confiavam nelas.
De forma paradoxal, Marie François Xavier Bichat identificou, por meio de dissecção macroscópica, vinte e um tipos de tecidos, sem recorrer ao microscópio. Desses, sete foram classificados como gerais e catorze como especiais. Para Bichat, o tecido representava a unidade morfológica e funcional dos seres vivos, enquanto os órgãos seriam formados pela combinação de diferentes tecidos, de modo que sua função resultava da atividade vital de cada um deles. Essa distinção fundamentou sua importância na história da ciência, razão pela qual Bichat é amplamente reconhecido como o “Pai” da Histologia Moderna e da Anatomia Descritiva.
Marie François Xavier Bichat (1771–1802), anatomista e patologista francês, é amplamente reconhecido como o pai da Histologia moderna. Mesmo sem recorrer ao microscópio, identificou 21 tipos de tecidos elementares que, combinados, formam os órgãos do corpo humano.
O termo “Histologia” só foi utilizado pela primeira vez no início do século XIX por August Mayer. Esta nomenclatura passou a ser amplamente utilizada a partir de 1844, e o século XIX foi recheado de avanços extraordinários na área de microscopia e no processamento de amostras. Foi neste século que houve a descoberta dos movimentos ciliares, a identificação das células de Purkinje no cerebelo e das fibras de Purkinje no coração, ambas feitas por Jan Evangelista Purkinje. Franz Leydig descreveu células organizadas entre os túbulos seminíferos, que viriam a receber seu nome posteriormente; Enrico Sertoli identificou células pálidas e piramidais entre as células germinativas dos testículos, que também receberiam seu nome; por fim, Theodor Schwann, enquanto estudava nervos periféricos, identificou e descreveu um envoltório membranoso que posteriormente seriam designadas como células de Schwann.
August Mayer (1787 – 1865).
Jan Evangelista Purkinje (1787 – 1869).
Franz Leydig (1821 – 1908).
Enrico Sertoli (1842 – 1910).
Theodor Schwann (1810 – 1882).
Os conhecimentos do século XIX culminaram no desenvolvimento da Teoria Celular, que propunha a célula como constituinte básico dos seres vivos. Ainda neste século, Rudolf Virchow deu contribuições significativas para a Patologia, ao defender que a doença é uma consequência da disrupção de processos celulares normais.
A partir de meados do século XIX, nomes como Camilo Golgi e Santiago Ramón y Cajal deram início aos estudos de Neurohistologia e Neuroanatomia, através de novas técnicas de estudo do Tecido e Sistema Nervoso.
Rudolf Virchow (1821 – 1902), foi um médico considerado o pai da Patologia moderna e da Medicina Social, além de antropólogo e político liberal. Virchow foi o pioneiro na descrição e nomeação de diversas doenças, incluindo leucemia, cordoma, ocronose, embolia e trombose. Também introduziu importantes termos biológicos, como “cromatina”, “neuroglia”, “agenesia”, “parênquima”, “osteóide”, “degeneração amilóide” e “espinha bífida”.
Camilo Golgi (1843–1926), médico e histologista italiano, conhecido pela descoberta do Complexo de Golgi. Descobriu que a impregnação por nitrato de prata permitia visualizar estruturas do Sistema Nervoso, como os dendritos. Recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1906.
Santiago Ramón y Cajal (1852–1934), médico e histologista espanhol. É considerado o pai da Neurociência Moderna. Sugeriu que os neurônios e comunicam através de ligações especializadas chamadas de sinapses. Recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1906.
Século XX até hoje.
No início do século XX Aleksei Alekseevich Zavarzin formulou a Teoria da Evolução dos Tecidos que propunha que os tecidos de animais de diferentes filos apresentavam características estruturais idênticas, tendências evolutivas paralelas e um princípio organizacional único. Ainda no século XX, microscópios de alta qualidade foram desenvolvidos por Ernst Abbe e Otto Schott, os micrótomos foram aperfeiçoados e as técnicas histológicas deram um salto com a introdução do formaldeído como fixador, da parafina como meio de inclusão, com colorações como hematoxilina e eosina, a introdução da fluoresceína e a utilização de óleo de imersão.
O maior impacto na Histologia aconteceu graças aos alemães Max Knoll e Ernst Ruska, inventores do Microscópio Eletrônico em 1931, que permitiu a visualização da ultraestrutura celular e melhor caracterização tecidual.
Hoje, a Histologia continua se desenvolvendo graças a novas ténicas de pesquisa científica e ao aperfeiçoamento e desenvolvimento de novos microscópios. As novidades sobre Histologia você poderá encontrar na seção de Blog da Histo do nosso site.
D’Angelo Magliano
Professor de Histologia
Microscópio Eletrônico de Transmissão.
Microscópio Eletrônico de Varredura.
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